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História

A história do EAD no Brasil, das apostilas à internet

Das apostilas pelo correio, que o Instituto Monitor transformou em escola a partir de 1939, ao EAD que hoje é maioria nas faculdades, a trajetória do ensino a distância no país.

João VenturiFundador da EADLMS 8 min de leitura
Rádio de válvula antigo, em primeiro plano, símbolo da época em que o Brasil ensinava a distância pelo rádio

Em poucas palavras

  • Há registros de cursos por correspondência no Brasil desde o começo do século XX, mas foi o Instituto Monitor, fundado em 1939, que passou a oferecê-los de forma sistemática; o Instituto Universal Brasileiro veio em 1941.
  • O rádio educativo começou nos anos 1920 e ganhou alcance nacional em 1970, com o Projeto Minerva; na televisão vieram o Telecurso 2º Grau (1978) e o Telecurso 2000 (1995).
  • A LDB de 1996 previu a educação a distância e o Decreto nº 2.494, de 1998, foi a primeira regulamentação federal; em 2005 o Decreto nº 5.622 o substituiu e detalhou a modalidade, e em 2006 veio a Universidade Aberta do Brasil.
  • Em 2024, pela primeira vez, as matrículas em EAD superaram as do presencial na graduação brasileira, 50,7% do total segundo o Censo da Educação Superior do Inep.

Em outubro de 1939, um imigrante húngaro chamado Nicolás Goldberger abriu em São Paulo uma escola para ensinar radiotécnica pelo correio. Ela se chamava Instituto Radiotécnico Monitor, e aquele pacote de apostilas, com material para o aluno montar o próprio rádio, costuma ser apontado como a primeira experiência bem-sucedida de ensino a distância do Brasil. Oitenta e sete anos depois, o EAD já é a modalidade com mais matrículas na graduação do país. A história entre esses dois pontos passa por rádio, televisão, satélite e, só muito depois, internet.

Os institutos por correspondência: Monitor e Universal Brasileiro

O Monitor nasceu para formar técnicos de rádio, numa época em que o aparelho se espalhava pelo país e faltava gente capaz de montar e consertar receptores; o curso de eletrônica só viria em 1942. O modelo era simples: o aluno recebia o material impresso em casa, estudava sozinho e devolvia exercícios pelo correio para correção.

O Monitor não foi a primeira tentativa de ensinar a distância no país. Pesquisas sobre o período registram cursos de datilografia por correspondência anunciados em jornais do Rio de Janeiro e a instalação, em 1904, das Escolas Internacionais, filiais de uma organização norte-americana que vendia cursos pelo correio. Em 1923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Edgard Roquette-Pinto, já transmitia programas educativos. O que distingue o Monitor é a continuidade: foi a primeira escola brasileira a oferecer cursos a distância de forma sistemática, e segue em atividade até hoje.

Em 1941, um sócio de Goldberger no Monitor fundou, com o irmão, o Instituto Universal Brasileiro; no fim daquele mesmo ano, a sociedade no Monitor foi desfeita. O IUB começou formando mão de obra para a indústria e os serviços, logo passou a oferecer cursos supletivos e se tornou uma das principais escolas por correspondência do país, com anúncios em jornais e revistas de circulação nacional. Em reportagem dos anos 2000, a Gazeta Mercantil registrava mais de quatro milhões de pessoas formadas pela escola. O Monitor, por sua vez, informa ter recebido mais de 6 milhões de alunos desde a fundação. As duas escolas seguem em atividade, hoje também com cursos pela internet.

Cartas e fotografias antigas amarradas com barbante, sobre uma mesa de madeira
Correspondência era o único canal entre escola e aluno na primeira geração do EAD. Foto: Suzy Hazelwood / Pexels

Esse período é o que os pesquisadores da área chamam de primeira geração da EAD: ensino baseado em material impresso, sem imagem nem som, dependente do serviço postal para ir e voltar.

O rádio em escala nacional: o Projeto Minerva

A segunda geração trocou o papel pelo sinal de rádio e de televisão. O rádio educativo já existia no Brasil desde os anos 1920, e nos anos 1960 o Movimento de Educação de Base, criado por iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, mantinha escolas radiofônicas no Nordeste. O que ainda não havia era uma rede nacional, e ela veio com o governo militar. Em julho de 1970, a Portaria Interministerial nº 408 obrigou todas as emissoras de rádio do país a reservar cinco horas semanais, de graça, à programação educativa: meia hora por dia de segunda a sexta, e mais tempo nos fins de semana. Nesse espaço entrou o Projeto Minerva, batizado com o nome da deusa romana da sabedoria e produzido pelo Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação, que foi ao ar pela primeira vez no segundo semestre de 1970.

A escolha do rádio tinha uma razão prática: era um meio barato e de grande alcance num país de dimensões continentais e analfabetismo alto. Os programas preparavam jovens e adultos para os exames supletivos. Os alunos matriculados se reuniam nos chamados radiopostos, instalados em escolas, salas comunitárias e salões de igreja, onde um monitor acompanhava a audição em grupo e o estudo dos fascículos impressos que complementavam as aulas, também vendidos em bancas de revista.

O Minerva saiu do ar na virada para os anos 1990 e foi encerrado oficialmente em 1991, por um convênio entre o Ministério da Educação e a associação das emissoras de rádio e TV. Com a popularização da televisão, o rádio vinha perdendo espaço como veículo de ensino a distância.

A televisão assume: Telecurso e Telecurso 2000

Enquanto o rádio ainda operava, a televisão começou a ganhar espaço como ferramenta educacional. Em janeiro de 1978 estreou o Telecurso 2º Grau, produzido pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, e pensado para preparar estudantes para os exames supletivos do então chamado segundo grau. As teleaulas tinham cerca de 15 minutos, eram organizadas por disciplina e podiam ser vistas em casa ou nas telessalas, espaços coletivos de exibição parecidos com os radiopostos do Minerva.

Já no lançamento, o programa foi exibido por 39 emissoras da Globo e TVs educativas, com alcance em todos os estados, e virou o produto educativo mais popular da emissora. Em janeiro de 1995 veio a atualização: o Telecurso 2000, lançado pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, voltado a jovens e adultos que precisavam concluir o ensino fundamental ou médio.

Televisão de tubo antiga, ligada, exibindo apenas estática, num cômodo escuro
A TV ganhou o centro do EAD brasileiro com o Telecurso, exibido por 39 emissoras já na estreia, em 1978. Foto: Quang Lự Đỗ / Pexels

A regulamentação: da LDB à Universidade Aberta

Enquanto a internet chegava, o EAD ganhou algo que faltava nas décadas anteriores: um lugar formal dentro do sistema educacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, previu a modalidade a distância em seu artigo 80, e o Decreto nº 2.494, de 10 de fevereiro de 1998, foi a primeira regulamentação federal desse artigo: definiu o que era educação a distância e exigiu credenciamento específico das instituições que dessem certificado ou diploma por esse caminho. Em 19 de dezembro de 2005, o Decreto nº 5.622 substituiu o texto de 1998 e detalhou como a modalidade funcionaria na prática, com momentos presenciais obrigatórios para avaliações, estágios, defesas de trabalho e laboratórios.

Poucos meses depois, em 8 de junho de 2006, o governo federal instituiu pelo Decreto nº 5.800 o Sistema Universidade Aberta do Brasil, a UAB, hoje gerido pela Capes, com o objetivo de expandir e interiorizar a oferta de cursos superiores públicos por meio de polos de apoio presencial mantidos com estados e municípios. A UAB tinha nascido como política em 2005, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação, voltada sobretudo à formação de professores da educação básica, e ganhou status legal no ano seguinte.

Foi esse arcabouço, construído entre 1996 e 2006, que abriu caminho para a expansão privada que viria depois: plataformas próprias, cursos de graduação 100% online e, mais recentemente, cursos livres e treinamentos corporativos vendidos direto ao consumidor pela internet. Vinte anos depois do Decreto nº 5.622, a regra passou por uma revisão profunda, como conta o texto sobre o novo marco regulatório da EAD publicado aqui no blog.

Os números de hoje

O crescimento foi rápido o bastante para inverter uma hierarquia que parecia definitiva. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, divulgado pelo Inep em setembro de 2025, as matrículas em EAD superaram pela primeira vez as do ensino presencial na graduação brasileira: 5.189.391 contra 5.037.482, o equivalente a 50,7% do total. Na década anterior, entre 2014 e 2024, as matrículas a distância cresceram 286,7%, enquanto o presencial encolheu 22,3%.

Marco Ano O que mudou
Escolas Internacionais 1904 Cursos por correspondência oferecidos por filiais de uma organização norte-americana
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro 1923 Programas educativos pelo rádio, ainda em escala local
Instituto Monitor 1939 Primeira escola a oferecer cursos por correspondência de forma sistemática
Instituto Universal Brasileiro 1941 Segunda escola por correspondência, uma das principais do gênero
Projeto Minerva 1970 EAD via rádio, em cadeia nacional, para ensino supletivo
Telecurso 2º grau 1978 EAD via televisão, com telessalas
LDB e Decreto nº 2.494 1996 e 1998 EAD prevista em lei e primeira regulamentação federal
Decreto nº 5.622 2005 Substitui o decreto de 1998 e detalha a modalidade
Sistema UAB (Decreto nº 5.800) 2006 Cursos superiores públicos a distância, com polos presenciais
Censo da Educação Superior 2024 2024 EAD passa a responder por mais da metade das matrículas de graduação

Da apostila por correio à plataforma própria

O fio que une o Instituto Monitor ao EAD de hoje é mais curto do que parece: em todas as gerações, a aposta foi usar a tecnologia disponível, impresso, rádio, TV, satélite, internet, para levar formação a quem não podia estar numa sala de aula física. O que mudou foi a velocidade e a quantidade de gente que a tecnologia atual permite alcançar de uma vez.

Quando abrimos a EADLMS em 2018, essa história já estava bem avançada, mas boa parte da infraestrutura disponível para quem queria montar uma escola online ainda era genérica, feita para qualquer tipo de negócio digital, não para ensino. Hoje, com mais de 600 plataformas no ar, dá para ver de perto como quem decidiu empreender em educação, seja um infoprodutor, um professor autônomo ou uma empresa estruturando treinamento interno, se apoia em ferramentas pensadas especificamente para isso: conteúdo, certificado (sobre o qual vale a pena ler se tem validade), checkout e, mais recentemente, inteligência artificial.

Página inicial de uma escola online na EADLMS, com curso em destaque, categorias e catálogo
Hoje, abrir uma escola é configurar uma plataforma, não imprimir apostila. Tela da plataforma EADLMS

Quem quiser entender como essas peças se encaixam numa escola própria pode conferir os recursos da plataforma ou testar gratuitamente em /criar/.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira escola de ensino a distância do Brasil?

O Instituto Monitor, fundado em 1939 em São Paulo com um curso de radiotécnica por correspondência, costuma ser apontado como a primeira escola brasileira a oferecer ensino a distância de forma sistemática. Antes dele houve iniciativas isoladas, como as Escolas Internacionais, instaladas em 1904. Em 1941, um sócio do Monitor fundou com o irmão o Instituto Universal Brasileiro.

O que foi o Projeto Minerva?

Um programa de ensino a distância pelo rádio, lançado pelo governo militar em 1970, com transmissão obrigatória por todas as emissoras do país e foco no ensino supletivo de jovens e adultos. Saiu do ar na virada para os anos 1990 e foi encerrado oficialmente em 1991.

Quando o EAD foi regulamentado no Brasil?

A LDB, de 1996, previu a educação a distância no artigo 80, e o Decreto nº 2.494, de 1998, foi a primeira regulamentação federal desse artigo. Em 2005, o Decreto nº 5.622 substituiu esse texto e detalhou a modalidade. No ano seguinte, o governo criou a Universidade Aberta do Brasil para expandir cursos superiores públicos a distância.

O EAD já é maior que o ensino presencial no Brasil?

Sim, desde 2024. Segundo o Censo da Educação Superior do Inep, as matrículas em EAD passaram as do presencial na graduação, 50,7% contra 49,3%, depois de crescerem 286,7% em dez anos.

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Fontes consultadas

  1. pt.wikipedia.org
  2. institutomonitor.com.br
  3. pt.wikipedia.org
  4. tede.utp.br
  5. memoriasdaditadura.org.br
  6. uel.br
  7. sites.uel.br
  8. revistas.metodista.br
  9. atlas.fgv.br
  10. pt.wikipedia.org
  11. planalto.gov.br
  12. planalto.gov.br
  13. pt.wikipedia.org
  14. planalto.gov.br
  15. gov.br
  16. jeduca.org.br
  17. gov.br
  18. download.inep.gov.br
João VenturiFundador da EADLMS

Fundou a EADLMS em 2018 e desde então ajudou mais de 600 escolas, empresas e professores a colocarem seus cursos online com marca própria. Escreve sobre o mercado de educação a distância no Brasil, regulamentação e tecnologia para ensino.

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